106 anos e cada vez mais tolerante com cães...

O poeta francês do século XIX, Gérard de Nerval, costumava levar a sua lagosta de estimação a passear por Paris, presa a uma fita de seda.

Quando lhe perguntaram por que gostava tanto deste animal, ele respondeu: «Tenho um carinho especial pelas lagostas. São criaturas pacíficas e sérias. Conhecem os segredos do mar e não ladram.»

 Pessoalmente, sempre preferi as preguiças às lagostas, exceto para fins culinários. Recentemente, porém, descobri algo sobre os cães que aumentou consideravelmente a minha admiração por eles.

Esta informação foi divulgada num boletim informativo da SloCo, a Fundação para a Conservação das Preguiças da Costa Rica.

As preguiças, como sabem, são extremamente hábeis a ficar penduradas de cabeça para baixo perto das copas das árvores e a permanecer quase imóveis, o que as torna difíceis de detectar e tem dificultado as tentativas de estimar o seu número.

Agora, porém, a SloCo deu início ao primeiro recenseamento de preguiças, graças a dois novos métodos de contagem destas animais. 

O primeiro recorre a drones térmicos especializados para detetar preguiças, mas o segundo é ainda mais criativo: cães que foram treinados para farejar excrementos de preguiça.

A primeira cadela a obter o certificado de deteção de excrementos de preguiça foi a Keysha, que já localizou dezenas de montes de cocó de preguiça. Liguei à Keysha para a felicitar, mas fiquei surpreendido ao ver que ela não estava nada contente.

«Sempre quis ser um cão farejador», explicou ela, «mas esperava farejar terroristas ou traficantes de droga, não cocó de preguiça.» 

«Não menosprezes a tua conquista», disse eu. «Descobrir terroristas e toxicodependentes pode ajudar a reduzir os males do mundo, mas descobrir preguiças tem um efeito muito mais positivo. Como disse o grande filósofo Arislothl: “Quem se deleita na solidão é ou uma fera, ou um deus, ou uma preguiça.” A tranquilidade divina de uma preguiça torna-a o melhor modelo a seguir para os humanos, e a sua solidão é algo a que devemos aspirar. Cheirar o seu cocó é um passo importante para alcançar esse ideal.”

A cadela ficou pensativa e, em seguida, sorriu em sinal de concordância. «Sabes», disse ela, «tu e o Arislothl ensinaram-me mesmo a ter orgulho no meu trabalho. Estou muito grata.» E foi-se embora a ladrar alegremente. Estou a pensar candidatar-me ao cargo de conselheira canina na SloCo.

- William Hartston

Coluna «Beachcomber» de 18 de março de 2023 

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Primeiro registo de preguiças através de drones térmicos