Tamanduás: os parentes mais próximos da preguiça!
A família Xenarthra
O que é, afinal, uma preguiça? Estão relacionadas com os ursos? Com os macacos? Com os marsupiais? Não! Na verdade, as preguiças fazem parte de uma família de mamíferos extremamente antiga (e extremamente estranha) chamada xenartranos (pronuncia-se zen-ar-tranos). Na verdade, acredita-se que esta família seja um dos grupos mais antigos de mamíferos ainda vivos hoje em dia e que inclua as nossas queridas preguiças, bem como os tamanduás e os tatus. O próprio nome «xenartranos» traduz-se literalmente do grego como «articulações estranhas» e todos os seus membros partilham articulações únicas na parte inferior da coluna vertebral.
Entre os xenartranos mais famosos e antigos de todos, destaca-se provavelmente o Megatherium — uma espécie extinta de preguiça-terrestre-gigante que chegava a medir mais de 25 pés de altura! Os primeiros fósseis deste animal foram originalmente descobertos por Charles Darwin perto da Patagónia, na Argentina.Sabias que estas preguiças gigantes são a razão pela qual temos abacates hoje em dia? Iremos aprofundar a história da família dos xenartranos com mais pormenor num próximo artigo, mas hoje queremos centrar-nos no parente mais próximo das preguiças: os tamanduás!
O que é um tamanduá?
A definição óbvia seria um animal que se alimenta de formigas (e térmitas) — mas, na verdade, isso aplicar-se-ia a todo o tipo de animais sem qualquer relação entre si (como o aardvark,o numbat,a equidna e o pangolim)
Inicialmente, os cientistas pensavam que estas diferentes espécies de animais que se alimentam de formigas estavam todas diretamente relacionadas devido às suas semelhanças: a dieta, as línguas compridas, o número muito reduzido de dentes, os antebraços poderosos e os focinhos em forma de tubo. No entanto, sabemos agora que estas espécies desenvolveram as suas características semelhantes através de um fenómeno fascinante denominado «evolução convergente».
A evolução convergente é um processo em que duas espécies muito diferentes desenvolvem características semelhantes. As duas espécies de preguiças que vemos hoje são também exemplos fantásticos disso — separaram-se uma da outra há aproximadamente 30 milhões de anos e adotaram, de forma independente, um modo de vida arbóreo, penduradas de cabeça para baixo.
Anatomia do tamanduá
Antes de falarmos sobre os diferentes tipos de tamanduá (sim, existem 4 espécies muito diferentes), vamos dedicar um momento a apreciar o quão maravilhosamente estranhos estes animais são.
Olha só para aquela cara!
Comer insetos pode ser complicado. Se alguma vez perturbaste acidentalmente um formigueiro, sabes como elas podem ser desagradáveis quando irritadas! Para evitar esta situação dolorosa, um tamanduá tem de agir rapidamente. Felizmente, têm línguas incríveis, o que torna todo o processo muito mais fácil. A língua de um tamanduá começa no esterno e pode atingir até dois pés de comprimento. Está também coberta de espinhos virados para trás e de saliva superpegajosa, para uma captura máxima de insetos.
Um tamanduá abre um ninho com as suas poderosas garras, semelhantes às de uma preguiça, e depois usa a sua língua longa e pegajosa para lamber o maior número possível de insetos em 60 segundos. Estendem a língua até 150 vezes por minuto e conseguem comer até 30 000 insetos por dia com este método!
As formigas demoram alguns instantes a perceber o que está a acontecer e, por isso, quando finalmente lançam um contra-ataque, o tamanduá já está pronto para seguir em frente. Ao alimentar-se de cada formigueiro apenas durante alguns segundos, o tamanduá não destrói completamente a colónia, pelo que pode sempre voltar para se alimentar novamente no futuro. A dieta sustentável por excelência!
O longo focinho do tamanduá é, na verdade, uma mandíbula alongada e eles não têm dentes nenhum! Bem, na verdade, não precisam deles, uma vez que se alimentam de formigas e térmitas. Também têm uma visão fraca — detetam os insetos graças ao seu poderoso olfato, que é até 40 vezes superior ao de um ser humano!A visão fraca e o olfato fantástico são características que partilham com as preguiças!
Quando se sentem ameaçados, os tamanduás levantam-se nas patas traseiras e abrem os braços para parecerem maiores. Os tamanduás-gigantes foram responsáveis por, pelo menos, três mortes de seres humanos e , nos três casos , o tamanduá tinha sido provocado. Há aqui uma lição a aprender: não se deve provocar um tamanduá zangado.
É melhor não te meteres em briga com um tamanduá!
As quatro espécies de tamanduás
1. Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)
Os tamanduás-gigantes, como o próprio nome sugere, são a maior espécie de tamanduá do mundo
Chamar-lhes «gigantes» não é exagero nenhum. Estes animais são os maiores da família e podem atingir até 2 metros (7 pés) de comprimento e pesar até 50 kg (110 libras). São, na sua maioria, terrestres e diurnos, e podem ser encontrados em vários habitats por toda a América Central e do Sul, tais como florestas tropicais, pradarias e savanas.
O nome científico significa «formigueiro» e «três dedos», mas estes animais têm, na verdade, cinco dedos na extremidade de cada membro (tal como as preguiças; aparentemente, os primeiros exploradores não conseguiam determinar corretamente o número de dedos das mãos e dos pés). Como as garras dos seus membros anteriores são tão grandes, os tamanduás-gigantes têm de andar apoiados nos nós dos dedos (à semelhança dos gorilas).
Tal como as preguiças, a temperatura corporal destes animais é muito baixa em comparação com a de outros mamíferos, e os seus principais predadores são grandes felinos, como as onças-pintadas e os pumas. Felizmente, porém, os tamanduás-gigantes são um pouco mais hábeis a defender-se do que uma preguiça! Esta espécie está classificada como «Vulnerável» pela IUCN, uma vez que a sua população está em declínio. As maiores ameaças incluem a perda de habitat, a caça furtiva, os incêndios florestais e as colisões com veículos na estrada.
2. Tamanduá-de-pêlo-sedoso (Cyclopes didactylus)
A menor das quatro espécies de tamanduás, o tamanduá-de-pêlo-sedoso, vive nas copas das árvores da América do Sul e da América Central.
É preciso ver estes tamanduás dourados, do tamanho de um hamster, para acreditar. Também conhecidos como «tamanduás-pigmeus», medem apenas 18 polegadas de comprimento, do focinho à cauda, e pesam menos de 1 libra (400 g). São os menos estudados de todos os tamanduás, provavelmente porque não só são pequenos, como também são noturnos e arborícolas! Tentar localizar uma bola de ténis dourada e fofa no topo de uma enorme árvore da floresta tropical não é tarefa fácil — especialmente quando a sua árvore preferida (a ceiba) produz vagens de sementes douradas e fofas que se parecem suspeitosamente com tamanduás-sedosos.
Há dois anos, os cientistas descobriram que existem, na verdade, 7 subespécies diferentes de tamanduá-sedoso, embora suspeitem que isto possa ser apenas a ponta do iceberg no que diz respeito aos tamanduás. Os cientistas não sabem realmente nada sobre estes pequenos animais estranhos — incluindo quantos ainda restam na natureza. Estão oficialmente classificados como «Preocupação Mínima» pela IUCN, embora o verdadeiro estado populacional das 7 subespécies seja desconhecido.
3 e 4. Tamandua-do-sul (Tamandua tridactyla) e tamandua-do-norte (Tamandua mexicana)
Tamandua é um género de tamanduás que inclui duas espécies: a tamandua-do-sul e a tamandua-do-norte.
As duas últimas espécies são também conhecidas como «tamanduás-pequenos» (o que parece um nome um pouco ofensivo). Ambas são semelhantes em forma, cor e tamanho: têm um comprimento médio (incluindo a cauda) de 130 cm e pesam até 5,5 kg (semelhante a uma preguiça adulta). No espectro dos tamanduás, estes animais situam-se algures a meio caminho entre o tamanduá-gigante e o minúsculo tamanduá-sedoso.
Tal como o tamanduá-gigante, têm garras longas nas patas dianteiras que dificultam a marcha, mas, tal como o tamanduá-sedoso, também estão adaptados para viver, dormir e procurar alimento no dossel das árvores. Poderá perguntar-se como é que um animal que se alimenta de formigas consegue encontrar comida nas árvores. Felizmente, estas tamanduas também se alimentam de térmitas, e estas gostam de construir os seus ninhos no topo das árvores. A cauda forte e preênsil das tamanduas funciona como uma corda de segurança enquanto trepam pelo topo da floresta tropical à procura de térmitas.
Tal como os nomes sugerem, a tamandua-do-sul vive nas florestas tropicais da América do Sul, enquanto a tamandua-do-norte se encontra mais a norte, nas florestas tropicais da América Central. Ambas as espécies estão classificadas como «pouco preocupantes» pela IUCN.
Os tamanduás são bons animais de estimação?

Antes que perguntes: não! Não deves ter um como animal de estimação. São animais selvagens que não gostam do contacto com os humanos. O tamanduá-gigante e os tamanduás conseguem defender-se perfeitamente bem com aquelas grandes garras, mas o tamanduá-de-pêlo-sedoso é mais vulnerável. Sabemos que são maravilhosamente estranhos e, é verdade, muito fofos, mas precisam de viver na natureza. Mesmo que encontrasses um e o levasses para casa, ele não sobreviveria mais do que alguns dias em cativeiro (e depois sentir-te-ias péssimo).
A maioria dos tamanduás (e preguiças) que são vendidos como animais de estimação provém do comércio ilegal de animais selvagens. Isto significa que os caçadores furtivos na América do Sul e na América Central mataram uma mãe para obter uma cria, que é mais fácil de comercializar.
Se quiseres ver os tamanduás em ação (altamente recomendado), podes sempre ir visitá-los num jardim zoológico de renome, num centro de conservação ou num centro de resgate de animais selvagens (consulta o nosso guia sobre interações éticas com animais em jardins zoológicos para te certificares de que não estás, acidentalmente, a apoiar a exploração animal). Se tiveres sorte, talvez até consigas ver um na natureza, se planeares uma viagem à América Central ou à América do Sul!