Ciência preguiçosa e acesso universal à informação

O dia 28 de setembro é o Dia Internacional do Acesso Universal à Informação (IDUAI), um dia que, apesar desta era digital, passa praticamente despercebido.

Mas o que é que isto significa? E de que forma é que garantir o acesso universal à informação tem a ver com as preguiças? Na nossa busca por compreender melhor estas criaturas únicas e enigmáticas, toda a informação sobre elas é valiosa. Além disso, o sucesso do método científico depende do acesso aberto e equitativo à informação. 

As origens do método científico

O método científico, já comprovado e consagrado , um elemento fundamental das nossas feiras de ciências e das nossas salas de aula, nem sempre existiu. Surgiu no século XVII, em grande parte graças ao trabalho de Copérnico e Newton, cujas teorias nos ajudaram a compreender o papel da gravidade no nosso sistema solar.

Um dos principais motores do sucesso do método científico tem sido a partilha de informação. Os estudos são repetidos em diferentes contextos para verificar se se obtêm os mesmos resultados, e o conhecimento adquirido com estas experiências serve de inspiração para novos estudos. Juntos, começamos a desvendar os mistérios do universo. No entanto, apesar do seu poder, o conhecimento nem sempre foi partilhado de forma equitativa. 

A primeira biblioteca pública

A biblioteca pública moderna, tal como a conhecemos hoje, é uma invenção relativamente recente. Existem vestígios de bibliotecas antigas que remontam ao ano 7 a.C., com a a biblioteca mais antiga conhecida pertencia ao soberano assírio Assurbanipal; no entanto, o acesso a estas coleções era restrito. A primeira biblioteca pública moderna foi criada em 1833 em Peterborough, New Hampshire, tornando a Biblioteca Municipal de Peterborough a biblioteca pública mais antiga financiada por receitas fiscais.  

Os livros da Biblioteca Municipal de Peterborough podiam ser consultados gratuitamente por qualquer pessoa que residisse na cidade./Fonte: https://peterboroughtownlibrary.org/history/

Hoje em dia, muitas das nossas bibliotecas passaram para o mundo virtual e, mesmo assim, continuam a proporcionar acesso gratuito a uma grande variedade de materiais educativos. No entanto, apesar da importância do acesso aberto à informação, muitas revistas científicas continuam a agir como guardiãs desse acesso. 

Revistas de acesso aberto

Se é um cientista que acabou de concluir um estudo, o próximo passo consiste, muitas vezes, em decidir se pretende publicar o seu artigo numa revista tradicional ou numa revista de acesso aberto. Historicamente, as revistas só estavam disponíveis em formato impresso. Agora, na era da Internet, muitas revistas optaram por publicar os seus estudos online.

Tal como as bibliotecas públicas, as revistas de acesso aberto são gratuitas e podem ser lidas por qualquer pessoa com ligação à Internet. Parece ser a melhor opção, certo? Embora a publicação numa revista de acesso aberto possa, muitas vezes, proporcionar maior visibilidade (uma vez que o estudo está facilmente acessível), existem desvantagens ocultas. 

A primeira e a mais recente edição da revista científica mais antiga, a *Philosophical Transactions* (1665-presente)./Fonte: Wikimedia Commons e https://royalsocietypublishing.org/journal/rstb

Os cientistas pagam para publicar e os leitores pagam para aceder aos artigos

Ao contrário da maioria das outras profissões, os cientistas não são pagos para publicar os seus trabalhos — na verdade, é exatamente o contrário. Em primeiro lugar, os cientistas têm de angariar financiamento para a sua investigação (através de candidaturas a bolsas, angariação de fundos ou autofinanciamento) e realizar o árduo trabalho de concluir a investigação. Se o projeto correr bem e resultar num artigo passível de publicação, têm então de pagar a uma revista científica para o publicar.

As taxas de publicação ascendem normalmente a milhares de dólares (sendo que o custo de publicação nas revistas de maior prestígio ultrapassa frequentemente os 10 000 dólares por artigo).

A maioria das revistas científicas cobra então uma taxa adicional a quem quiser ler o artigo após a publicação. Muitas universidades pagam as taxas de assinatura, tornando uma variedade de revistas e publicações acessíveis «gratuitamente» aos seus estudantes. No entanto, para uma pessoa que não esteja a estudar numa universidade, um único artigo pode custar mais de 30 dólares. Um preço que, para muitos, é proibitivamente elevado.

Por esta razão, publicar numa revista de acesso aberto é significativamente mais caro do que publicar numa revista mais tradicional, do tipo «pagar para ver». A menos que o cientista que pretende publicar o estudo disponha deste tipo de fundos, poderá ter de optar por uma revista de acesso mais restrito ou, então, não publicar de todo as importantes conclusões do seu trabalho!

Pagar para aceder a informação científica não é uma opção para a maioria das pessoas que vivem e trabalham em regiões de importância crítica para a conservação.

Existe uma sobreposição significativa entre as zonas de pobreza e as principais áreas de biodiversidade global. Se as pessoas que trabalham no terreno para proteger e conservar a vida selvagem não conseguirem aceder às informações científicas mais recentes devido a restrições financeiras (ou a barreiras linguísticas, uma vez que a maioria das revistas científicas só publica em inglês), então essa informação não está a chegar às pessoas que mais precisam de ter acesso a ela. 

O compromisso da SloCo com o acesso aberto

Aqui na SloCo, acreditamos que o conhecimento deve ser partilhado. Por isso, toda a investigação que realizámos sobre as preguiças é publicada em revistas de acesso aberto. A nossa esperança é que, ao permitir que todos tenham acesso a esta informação, possamos aproveitar o poder da ciência colaborativa para compreender de forma mais eficaz as preguiças e a forma como as podemos ajudar. 

A investigadora especializada em preguiças e fundadora da SloCo, a Dra. Rebecca Cliffe, coloca uma mochila para preguiças Foto: Suzi Eszterhas

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