Diários de Acompanhamento n.º 4: Questionar os pressupostos

«Já nem sei o que é real!», lamenta-se a Amanda.

Estamos a seguir um preguiçoso chamado Alan pela Floresta do Cacau, à qual estou a pensar mudar o nome para Floresta das Fadas, porque a falta de visibilidade e a forma como os sinais de rádio ricocheteiam são verdadeiramente sobrenaturais. Além disso, o nome «Triângulo das Bermudas» já está ocupado.

Tudo começou há cerca de um mês, quando a nossa antena de rádio desapareceu («Não fui eu que a perdi!», insiste a Sarah, «Foi roubada!»). Durante algumas semanas, tivemos de usar uma das nossas antenas menos fiáveis, o que fez com que os nossos esforços para localizar as preguiças se parecessem mais com um daqueles jogos de feira viciados, em que se passa cerca de três horas e se gastam centenas de dólares a tentar ganhar aquele urso de peluche gigante impossível de ganhar, só que os nossos ursos de peluche vivem nas árvores e o seu pêlo tem o seu próprio ecossistema.

Um dia, enquanto a Amanda estava lá fora com o referido equipamento pouco fiável, apareceu um tipo e perguntou-lhe o que ela estava a fazer. Este tipo de situação acontece constantemente; as pessoas vêem alguém coberto de logótipos da SloCo a apontar um monte de equipamento tecnológico para uma árvore e ficam curiosas. A Amanda começou a falar-lhe um pouco sobre o nosso projeto «Urban Sloth», mas este tipo não estava interessado em preguiças, queria saber mais sobre a antena de rádio.

O quê?

Mais concretamente, ele quer saber se a antena vale muito dinheiro. Isto parece-me altamente suspeito.

«Não, são super baratas. Só que são difíceis de encontrar por estas bandas.» A Amanda encolhe os ombros, como se isso não tivesse qualquer importância . «Já encomendámos outra.» (Na verdade, as antenas são mesmo muito caras.)

O tipo parece desapontado. Oferece-se para nos vender uma antena azul que, por coincidência, corresponde exatamente à descrição da nossa antena perdida. Felizmente para o orçamento da SloCo, a Amanda tem a perspicácia necessária para lidar com esta situação e, após alguma negociação, ele dá-lhe a antena em troca do seu número de telefone.

Agora já temos a nossa bela antena de volta, mas, infelizmente para as hipóteses que a Amanda e eu temos de encontrar o Alan hoje, parece que não sabemos como usá-la. As nossas outras antenas são bastante simples: há uma pega numa extremidade e um conjunto de fios na outra — basta apontá-la numa direção e esperar que emita um sinal sonoro. Esta antena azul desdobra-se, formando um conjunto de fios de 360 graus numa pega que se segura acima da cabeça. Parece algo que se poderia usar para receber sinais do espaço sideral.

Neste momento, os OVNIs parecem ser uma explicação muito plausível para o paradeiro das nossas preguiças, porque sempre que pensamos estar a captar um sinal, este esmorece assim que começamos a segui-lo. É extremamente frustrante.

«Eu sei o que queres dizer», digo-lhe. «É como se nos estivesse a afastar do... oh não.» Tenho um pensamento terrível. «Amanda, como é que sabemos para que lado está virada a nossa antena?»

«Porque a pega tem saliências.» A Amanda está a mexer nos botões da caixa do recetor. «Só há uma maneira de a segurar.» «A pega que tem um fecho? Aquela que permite virá-la facilmente para o outro lado?»

Ela pára de ajustar a caixa do recetor e lança-me um olhar que diz que ainda não tomou café suficiente para lidar com esta situação. «Estás a falar a sério? Passámos mesmo o DIA INTEIRO sem encontrar nada só porque estávamos a APONTAR A ANTENNA NA DIREÇÃO ERRADA?»

Suspiro, viro o punho e estendo-lhe o conjunto. Ela olha para ele da mesma forma que o meu gato olha para uma banheira cheia de água com sabão.

Também nem sempre sei o que é real, e a única forma de descobrir é questionar os nossos pressupostos; até aos fundamentos, como, por exemplo, a forma de segurar um dispositivo de sinalização OVNI azul brilhante, outrora roubado, com um punho cuidadosamente ergonómico.

A Amanda bebe o que restava do café da sua caneca de viagem e troca-a comigo pela antena. «Pronto», diz ela, erguendo-a acima da cabeça. «Vamos repetir isto.»

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