Mylodon, a preguiça gigante, um omnívoro oportunista?
Atualmente, as preguiças são pequenos animais arborícolas que vivem no alto da copa da floresta tropical e se camuflam muito bem entre as plantas de que se alimentam. São lentas, são verdes e não conseguem saltar — mas um novo estudo publicado na revista Scientific Reports sugere que os seus antepassados não eram os vegetarianos rigorosos que a sua reputação nos levaria a acreditar.
Existem seis espécies vivas de preguiças: quatro espécies de preguiças de três dedos e duas espécies de preguiças de dois dedos. As preguiças de três dedos, mais lentas e mais pequenas, são folívoras obrigatórias (alimentam-se exclusivamente de folhas), enquanto as preguiças de dois dedos consomem uma maior variedade de folhas e, ocasionalmente, complementam a sua alimentação com frutos.
Era uma vez
No antigo Pleistoceno, as preguiças constituíam uma grande parte do ecossistema sul-americano. Por vezes, eram literalmente grandes: a preguiça terrestre gigante Mylodon darwinii media entre três e quatro metros (mais de 10 pés) de comprimento e pesava até duas toneladas (cerca de 4 400 libras).
Com base nos registos fósseis dos seus dentes e nos hábitos alimentares atuais das preguiças, supunha-se que o Mylodon fosse herbívoro— embora os cientistas se questionassem frequentemente sobre como é que a relação entre o peso do intestino e o peso corporal desta preguiça terrestre gigante permitia uma dieta estritamente vegetariana.
A paleoecologia é uma área de estudo complexa. Os cientistas têm de recorrer a indícios indiretos, como ossos e fósseis, para deduzir aspetos como a dieta e o comportamento, e as preguiças terrestres gigantes não possuem os dentes afiados nem as garras que a maioria dos carnívoros modernos utiliza para capturar e matar as presas.
É aqui que entra em cena uma técnica relativamente nova chamada «análise isotópica específica de compostos de aminoácidos»: trata-se de uma medição de determinados isótopos de azoto encontrados no cabelo, nas unhas e em algumas partes dos ossos e dentes, que nos permite saber de onde o animal em questão obteve os seus aminoácidos alimentares. Esta análise consegue distinguir entre aminoácidos de origem vegetal ou animal e até determinar se a dieta era composta principalmente por marisco ou por carne de animais terrestres.
Ao compararem amostras de animais atuais, incluindo preguiças, tamanduás (que estão relacionados com as preguiças) e uma variedade de omnívoros, os investigadores do Museu Americano de História Natural concluíram que o Mylodon era, de facto, também um omnívoro.
Reconstrução do Mylodon por Jorge Blanco
Como ser uma preguiça-gigante omnívora
Isto levanta imediatamente a questão: como? Afinal, praticamente todos os animais conseguem correr mais depressa do que uma preguiça moderna, e as antigas preguiças terrestres não dão sinais de serem criaturas velozes. Especula-se que o gigantesco Mylodon possa ter procurado ovos de aves ou se alimentado de carne de animais mortos por outros predadores— afinal, não é preciso uma velocidade impressionante para caçar um cadáver.
Nem todas as preguiças terrestres gigantes passaram a alimentar-se de carne; tal como todas as preguiças modernas, o parente norte-americano do Mylodon, o Nothrotheriops shastensis, era estritamente herbívoro.
Os ancestrais remotos da humanidade alimentavam-se certamente das preguiças terrestres gigantes, e é interessante pensar que algumas delas possam, ocasionalmente, ter retribuído o favor. Felizmente para os humanos modernos, estamos a salvo das pequenas preguiças de dois e três dedos dos dias de hoje, e estas ficariam certamente contentes por estarem também a salvo de nós.
Uma representação de seres humanos a caçar preguiças gigantes / Ilustração: Alex Macclelland, Universidade de Bournemouth
Referência da revista:
Julia V. Tejada, John J. Flynn, Ross MacPhee, Tamsin C. O’Connell, Thure E. Cerling, Lizette Bermudez, Carmen Capuñay, Natalie Wallsgrove, Brian N. Popp. Os dados isotópicos dos aminoácidos indicam que a preguiça terrestre de Darwin não era herbívora. Scientific Reports, 2021; 11 (1) DOI: 10.1038/s41598-021-97996-9